segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Vejo e sinto

                                         
Dentro dos seus olhos parados, vejo um céu nublado, onde uma estrela solitária insiste em brilhar.
Vejo na sua face clara, a tristeza de quem chora a soluçar.
Sinto no seu abraço fraco o desespero guardado que nem mesmo um grito colossal conseguiu arrancar.
E dentro desse quarto gelado escuro e bizarro tenta isolar-se.
Matar-se-ia se não fosse pelo beijo amargo arrancado do seu lábio em uma noite qualquer.
Viva a rosa negra como uma noite sem luar.
Viva a rosa vermelha como o sangue que desse do meu peito após beijar-te.
Talvez seja melhor deitar-me nessa cama infecta e cerrar as pálpebras para esperar que ainda essa noite quando estiver embaixo dos destroços um anjo de asas negras venha carregar-me em seus braços para longe das trevas, rumo à ilha esmeralda, ou para onde a luz de sol não possa chegar.
     

   

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O outono

                                         
Era finalzinho de tarde quando sol passou a recolher-se. O alaranjado provocado pelo crepúsculo inundava o céu levemente escurecido onde pássaros esvoaçavam farfalhando incessantemente sem deixar à menor duvida de que a noite se aproximava.
Dentro de um vale encontrava-se uma velhinha que observava o alvoroço das aves, da janela de sua casa, e comentava com firmeza:
- Os pássaros estão diferentes hoje, voando com tanta pressa e descuido porque será?
Sua neta que costumava brincar no jardim da casa, todo finalzinho de tarde congelou seu olhar no pedacinho de sol que ainda se via nas montanhas e falou com voz suave, porém, tremula:
- Vovó o sol está se despedindo hoje frio, escuro e fraco.
Um vento frio beijou o rosto da velha mulher que olhou para a beleza do vale florido e disse:
- Amada neta, o sol se vai tão triste porque o outono o beijou com seus lábios frios, e jogou sobre as flores e folhas de todo esse vale seu manto soturno e por isso o sol resisti em ir, pois, amanhã a beleza que contemplas começará a definhar e ficará muito tempo, adormecida até que a primavera venha lhe acordar.
Alguns minutos se seguiram e o sol finalmente fora engolido pelas ignívoras montanhas no oeste do vale, que permaneciam banhadas apenas por finos raios solares.
Ao olhar para o leste, a meiga menina de olhos claros, que tinha presa aos seus cabelos negros uma fita de cor azul, aproximou-se e disse preocupada a sua avó:
-Uma tempestade esta vindo, entremos vovó antes que ela chegue e descarregue no vale a sua ira e faça ecoar aqui os seus gritos.
A velha senhora falou humilde e docemente como quem acabe de aprender algo valioso:  
-Vamos seguir o exemplo do sol, recolhendo-nos, porém, não temas os rumores da tempestade que chegara nesta noite minha neta, pois ela certamente irá passar, e o sol reaparecer; mais frio e comedido que hoje, no entanto radiante como sempre para nos banhar.
- Mas se ele não voltar amanhã?
-Voltará depois minha querida, porque ele sempre volta para nos tirar da escuridão.   
                                                                                                                        
                                                                                                                                        

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